
(Este texto faz parte do livro O sentido da vida).
No monólogo filosófico “A morte de Sócrates”, o professor Zeferino Rocha recria os últimos momentos da vida daquele filósofo grego. Somos levados à cidade de Atenas do ano 399 a.C. Sócrates, acusado de não respeitar os deuses da cidade e corromper a juventude, havia sido condenado à morte.
Mas o que fizera ele para merecer tal veredicto? Logo ele, que a pitonisa dissera ser dentre os homens o mais sábio; ele, que na vida não tinha feito outra coisa senão buscar sempre a verdade sem jamais arredar pé dessa procura!
Tudo isso inundava-lhe os pensamentos antes do momento fatal. A iminência da morte aguçava-lhe as lembranças e o filosofar. Recordava-se da família: do pai, escultor, que não conseguira fazer o filho tirar estátuas do mármore; da mãe, que ajudando as mulheres a dar à luz, revelou a verdadeira vocação de Sócrates: ser parteiro de idéias. Naquele momento, compreendeu que se era sábio era porque impusera-se o reconhecimento da própria ignorância como exigência metodológica fundamental (o “só sei que nada sei”), e, quem sabe, por seguir o ensinamento insculpido no dintel do templo de Delfos: “conhece-te a ti mesmo”, afinal, o verdadeiro conhecimento nasce do autoconhecimento.
Por isso, a questão fundamental, naquele instante, não era o medo da morte (esta não é apenas uma travessia de quem é viajante do tempo?), mas a razão mesma da existência: o que teria feito de sua vida; da vida, que não nos é dada pronta e acabada, mas que nos é confiada como missão a ser cumprida dia a dia?
Absorto nessas indagações, Sócrates tomou nas mãos a taça de cicuta e sorveu de um só gole o veneno. Então pôs-se a versejar:
As rosas que eu não plantei,
ninguém as plantará por mim.
As lágrimas que não chorei,
ninguém as chorará por mim.
As lutas que não lutei,
ninguém as lutará por mim.
A vida que não vivi,
alguém a viverá por mim?
Ninguém.
Sou único.
Uma palavra que não se repete.
Mortal,
mas, insubstituível.
Sentindo os primeiros efeitos da cicuta, Socrátes deitou-se. Então chamou o carcereiro. Queria que desse um recado ao amigo Críton, para que este pagasse uma promessa feita pelo filósofo: oferecer, em sacrifício, um galo para o deus Asclépio. Assim, poderia partir sossegado para a travessia reservada a todos os viajantes do tempo.
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