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Religio

domingo, 5 de setembro de 2010

Palpite infeliz

A história da música brasileira registra a disputa entre Wilson Batista e Noel Rosa, que teve lances formidáveis. Noel, em parceria com Vadico, compôs um samba exaltando o bairro de Vila Isabel, o célebre Feitiço da Vila: quem nasce lá na Vila nem sequer vacila, ao abraçar o samba, que faz dançar os galhos do arvoredo e faz a lua nascer mais cedo.” Batista respondeu com Conversa fiada:é conversa fiada que o samba na Vila tem feitiço. Eu fui ver para crer e não vi nada disso; a Vila é tranquila porém eu vos digo: cuidado! Antes de irem dormir deem duas voltas no cadeado.” Noel, porém, deu o troco com Palpite infeliz: “Quem é você que não sabe o que diz; meu Deus do céu, que palpite infeliz!...” Dizem que Noel venceu a peleja. Mas, a bem da verdade, os dois ficaram amigos, e quem ganhou foi a cultura brasileira.


Bonito conflito esse, que começa e termina em samba. Afinal, nem todo conflito é ruim. O conflito, que é o confronto entre posições divergentes em busca de hegemonia, pode ser oportunidade para crescimento pessoal; tudo depende de como se busca solucioná-lo. Desde os conflitos internos até os familiares e sociais, não há saídas melhores para resolvê-los que abertura e diálogo, o que aconteceu no caso dos sambistas. O problema é que muitas vezes deixamos a violência derrotar o samba.


No ensaio “para não dizer que não falei de samba”, a antropóloga Alba Zaluar tenta desvendar os enigmas da violência do Brasil. Nele a autora nos faz ver que samba é muito mais que música ou dança; é um “fato social total”, fenômeno que mexe com o coração das pessoas e as une em laços de ajuda mútua, possibilitando a realização de ações concretas na sociedade. Nas primeiras décadas do século XX, o samba promovia relações fraternas entre os habitantes do morro e a elite carioca. Sambistas tornavam-se amigos de políticos; estes lhes arranjavam empregos. O poder público, por outro lado, apoiava o desfile das escolas de samba. Em 1929, a pioneira Deixa falar entrou na avenida com uma comissão de frente montada em cavalos cedidos pela polícia militar. Quatro anos mais tarde, o evento recebia subvenção da Prefeitura do Rio, e patrocínio do jornal O Globo, do então diretor Roberto Marinho. E em 1935, Villa-Lobos fez com que fosse tocado um samba da Mangueira, numa transmissão radiofônica para a Alemanha nazista. Pena que os nazistas não se deixassem tocar pelo espírito civilizador do nosso samba.


Mas não foram apenas eles que não permitiram ao samba derrotar a violência. No Brasil, a violência também tem mostrado suas garras. Entre 1980 e 1990, os índices de mortes violentas em nosso país passaram a ser o dobro das registradas nos Estados Unidos, sendo comparáveis as de um país em guerra, o que causa perplexidade. Se o nosso povo é pacífico e o homem brasileiro, cordial, como se explica tanta violência, seja entre gangues ou torcidas de futebol; violência policial e contra policiais; violência no campo, no trânsito, na escola ou na família?


Não é fácil encontrar respostas para essa questão. Até quem estuda a matéria a fundo, como Alba Zaluar, reconhece ser difícil entender a violência no Brasil e lidar com ela. Mas uma coisa é certa: a violência não se limita à questão da pobreza, nem se reduz a um caso de polícia. Também é certo que para se construir uma cultura de paz, é preciso lutar pela justiça e reatar os laços de convivência fraterna, como os gestados pelo “samba civilizador.” E para quem defende que a paz seja feita na base das armas, e a violência se resolva com mais violência, eu lhe digo: cuidado! Quem é você que não sabe o que diz; meu Deus do céu que palpite infeliz!

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