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Religio

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Palavra de João Grilo



“... e prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.” Não é fácil cumprir uma promessa dessas se não houver amor entre o casal. Por isso costumo brincar com minha esposa, dizendo que esse tipo de promessa, que pronunciamos no compromisso matrimonial, é feito aquela do Auto da Compadecida. Chicó, pensando que João Grilo tivesse morrido, prometeu dar a Nossa Senhora todo o dinheiro que os dois haviam conseguido depois da história do testamento da cachorra, se acaso João Grilo escapasse da morte. Quando este retornou ao mundo dos vivos e soube da promessa, foi aquele aperreio:

JOÃO GRILO

Mas Chicó, como é que se faz uma promessa dessas?

CHICÓ

E eu sabia que você ia escapar, desgraça? Oh homem duro de morrer, meu Deus!

JOÃO GRILO

Ah promessa desgraçada, ah promessa sem jeito, Chicó!

Mesmo reclamando de minuto em minuto, João Grilo sabia que ele e Chicó tinham de pagar o que deviam. A promessa não tinha sido feita para qualquer santo, mas a Nossa Senhora, com quem João tinha coragem de tirar brincadeira, mas nunca de faltar com o prometido. Por isso os dois terminaram cumprindo a promessa, ainda que abrissem mão de ficar ricos.

Em nossas relações cotidianas -- seja com os santos, seja com aqueles que não são ─, a promessa tem importância fundamental. Ela e o perdão representam dois enormes poderes na pluralidade que caracteriza a condição humana, como nos faz ver Hannah Arendt.

O perdão soluciona o problema da irreversibilidade da ação. Se esta é irreversível – o que está feito, está feito, não dá para voltar atrás ─, o perdão desfaz os efeitos do mal já cometido, e pode ser eficiente instrumento de paz. A faculdade de perdoar está presente no princípio romano de poupar os vencidos nas guerras, na prerrogativa de comutação da pena de morte conferida aos chefes de estado e na anistia concedida a militares e guerrilheiros, pelos atos cometidos durante regimes de exceção. Todos esses exemplos, porém, ainda estão longe do perdão de Jesus de Nazaré, tido por Hannah Arendt como o “descobridor do papel do perdão na esfera dos negócios humanos.” Perdoar setenta vezes sete não é para todo mundo. Nessa dimensão só o amor é capaz de perdoar, razão pela qual esse perdão vai muito além das fronteiras da diplomacia ou das políticas de estado.

A promessa, por outro lado, é o grande recurso para a imprevisibilidade da ação humana. Diferente do perdão, que cura feridas do passado, a promessa projeta-se para o futuro. Se este, como observa Hannah Arendt, é um “oceano de incertezas”, a faculdade de cumprir promessas pode criar “ilhas de segurança, sem as quais não haveria continuidade, e menos ainda durabilidade de qualquer espécie, nas relações entre os homens.” O poder de prometer encontra-se na Aliança feita entre Deus e o seu povo, no princípio jurídico de que os pactos devem ser cumpridos e nos juramentos de toda ordem. Médicos juram conservar imaculada sua vida e sua arte; juízes, respeitar e aplicar a lei; governantes, observar as Constituições; noivos, amor e respeito até que a morte os separe. Mas quem garante que todos serão fiéis aos compromissos assumidos?

No caso da promessa, o mais importante não é fazê-la e sim cumpri-la. Quando não se dá o devido valor à palavra empenhada, a promessa fica desacreditada. No jogo eleitoreiro, por exemplo, tornou-se comum a prática de prometer o que não se pretende cumprir, o que faz muita gente repetir o chavão de que não se deve acreditar em promessa de político, pois “quem enricou com promessa foi São Severino dos Ramos.” É uma pena. Pois o que se pode esperar de alguém cuja palavra não vale nada? Gente assim deveria seguir o exemplo de João Grilo e Chicó. Mesmo não sendo modelos de perfeição – na verdade, ninguém o é --, não trocaram a palavra dada por dinheiro, mesmo sendo pessoas necessitadas. Afinal de contas, como diz João Grilo, ao decidir entregar o dinheiro a Nossa Senhora: “Entrego. Palavra é palavra e depois estive pensando: quem sabe a gente, depois de ficar rico, não ia terminar como o padeiro? Assim é melhor cumprir a promessa: com desgraça a gente já está acostumado e assim pelo menos não se fica com aquela cara.”

Palavra de João Grilo.

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