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Religio

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Gilgamesh



“Reinar é o teu destino; a vida eterna não é o teu destino.” Esta foi a sina decretada por Enlil da montanha, o pai dos deuses, a Gilgamesh, rei de Uruk. Mas quem é Gilgamesh, e que destino é esse decretado por Enlil da montanha?

O poema de Gilgamesh advém de tempos imemoriais. Quase perdido no esquecimento, veio à luz nas primeiras décadas do século XIX, quando exploradores ingleses, ao fazerem escavações em Nínive, descobriram mais de vinte mil textos escritos em tabuinhas de barro, nas ruínas da biblioteca de Assurbanipal. A partir de então, iniciou-se uma série de estudos sobre essa literatura até então perdida, da qual faz parte a epopéia de Gilgamesh, seguramente a mais antiga de que se tem conhecimento. Somente para se ter uma idéia, esse poema data de pelo menos mil e quinhentos anos antes da Ilíada e da Odisséia. Logo no prólogo, o narrador anuncia:

Proclamarei ao mundo os feitos de Gilgamesh. Eis o homem para quem todas as coisas eram conhecidas; eis o rei que percorreu as nações do mundo. Ele era sábio, ele viu coisas misteriosas e conheceu segredos. Ele nos trouxe uma história dos dias que antecederam o dilúvio. Partiu numa longa jornada, cansou-se, exauriu-se em trabalhos e, ao retornar, descansou e gravou na pedra toda a sua história.”

Depois desse anúncio, segue o relato da luta do rei contra os poderes do mal, numa narrativa dinâmica e colorida, tão eletrizante que parece filme de Hollywood. Na angústia de saber que todo homem tem seus dias contados, Gilgamesh saiu em busca do segredo da imortalidade. Nessa aventura, “correu o mundo selvagem; vagou pelos campos e pastos numa longa jornada em busca de Utnapishtim, a quem os deuses acolheram após o dilúvio e instalaram na terra de Dilmum, no jardim do sol; e somente a ele, entre todos os homens, os deuses concederam a vida eterna.”

E quando finalmente encontrou o sobrevivente do dilúvio, não ouviu deste palavras de consolo, mas a lição de que no mundo dos homens não existe permanência: “Acaso construímos uma casa para que fique de pé para sempre, ou selamos um contrato para que valha por toda a eternidade?” (...) O que existe entre o servo e o senhor depois de ambos terem cumprido seus destinos?”

Ouviu também a fantástica narrativa do dilúvio provocado pelos deuses, que resolveram exterminar a raça humana, mas mandaram Utnapishtim construir um barco em que pusesse preservar a semente de todas as criaturas vivas. Soube ainda da existência de uma planta que cresce sob as águas, capaz de restaurar ao homem a juventude perdida. E Gilgamesh, na volta de sua jornada, conseguiu pegar em suas mãos essa planta. Esta, porém, foi roubada por uma serpente saída do fundo de um poço, no qual o rei tinha entrado para se banhar.

Pois bem. O poema de Gilgamesh é a história de cada um de nós; de quem tenta desvendar os mistérios e histórias do passado distante, até mesmo de dias anteriores ao dilúvio; do ser humano que apesar de, algumas vezes, definir-se como um ser para a morte e abandonado ao próprio destino, revela, na epopeia do dia-a-dia, uma profunda vocação para a transcendência.

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