No final do artigo anterior, pedi discernimento e humildade para, em outra oportunidade, falar do texto-base da Campanha da Fraternidade deste ano. Discernimento não é mera técnica do pensamento; é dom de Deus. Valha-me, pois, Nossa Senhora, para que eu trate do tema sem cair em desatinos.
O tema da campanha é fraternidade e moradia. O objetivo geral é promover a moradia digna como direito essencial e prioritário, a partir do Evangelho e em espírito de conversão quaresmal. E o lema, retirado de Jo 1,14 é: “Ele veio morar entre nós.” A tradução desse versículo, adotada no texto, aparece no início do segundo capítulo do texto-base, onde se lê: “E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós.”
Longe de mim duvidar da capacidade, muito menos da reta intenção de quem escolheu essa versão (quem sou eu?!), mas penso que a tradução “e o Verbo se fez carne e habitou entre nós” expressa melhor a profundidade teológica do verso. “Verbo” é ação, e “habitou” aponta para a grandiosidade da Encarnação do Verbo, mistério muitíssimo maior que moradia digna como direito essencial.
Logo depois, o mesmo capítulo do texto-base traz duas citações do Evangelho de Lucas. No capítulo 2, versículo 7, Maria dá a luz seu Filho Jesus, envolve-o em faixa e o deita numa manjedoura, “porque não havia lugar para eles na hospedaria.” E no capítulo 9, versículo 58, Jesus diz: “As raposas têm tocas e os pássaros do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.”
Na sequência, vem o comentário que Jesus, ao nascer, não encontrou lugar na hospedaria e quando adulto, não teve onde reclinar a cabeça, embora tenha vindo ao mundo para que todos tenham vida plena, o que nas palavras do texto-base, “significa, hoje, vida digna, digna moradia, pleno acesso aos bens da cidade.”
A citação de Lc 2,7 é retomada na conclusão do texto. Lá se faz a seguinte alusão a Nossa Senhora: “Ela conheceu, desde cedo, a experiência da moraria negada, pois ‘não havia lugar para eles na hospedaria.” Mas Maria Santíssima tinha moradia, muito provavelmente casa própria. Portanto, no episódio referido, a ela foi negada hospedaria e não moradia.
Convém lembrar que Jesus não foi um mendigo. A escultura do Cristo Sem-Teto, reproduzida no cartaz da campanha, como bem observa o texto-base, é uma representação impactante, que nos convida a sentar ao lado dele no banco da praça, refletir “sobre a dignidade dos marginalizados, a importância da compaixão” e perguntar: “onde mora o Cristo hoje?” Não há, porém, representação tão impactante quanto a do Cristo na cruz.
Por isso, penso ser inadequado citar Lc 9,58 no intuito de direcionar o foco para o problema da falta de moradia. Quando disse que o Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça, Jesus não falava da sua condição, como se fosse alguém privado de moradia por exclusão social. Diferente disso, é a dura resposta a alguém que se dirigiu a ele, dizendo que hhavia de segui-lo para onde ele fosse, sem ter a dimensão das exigências desse seguimento, pois seguir Jesus é, por vontade própria, “caminhar sem pátria nem lar.” Penso também não ser apropriado pinçar a frase “construirão casas e nelas habitarão” (Is 65, 20), e direcionar a citação para a ação solidária em defesa da moradia digna, pois o profeta está falando de uma nova criação, de um novo céu e uma nova terra. Neles, construir e habitar casas não tem a ver com política habitacional no Brasil.
Claro que política habitacional faz parte do compromisso de fé. E nesse ponto o texto-base vai bem quando pretende ser um instrumento de reflexão, oração e mobilização, aliando fé e compromisso. Mas penso que o texto não precisava se ater a comparação entre programas sociais de diferentes governos, tampouco aos “ismos” que nos dividem (neoliberalismo, racismo ambiental e coisas do tipo), sem dar a mesma ênfase à fé que nos une e redime.
Nada disso me dá o direito de maldizer a Campanha da Fraternidade. O discernimento me diz que criticar não é jogar a primeira pedra sem qualquer reflexão. E a humildade é antídoto à tentação de querer ser dono da verdade.
O diálogo fraterno não se resume ao “é ou não é”, feito a conversa de João Grilo e o Cabo Setenta, quando este diz: “tem uma coisa que eu não gosto é de gente que fala ‘é ou não é?, eu fico ‘tinino.” No diálogo fraterno podemos discordar sem ofender. É assim que penso, embora, às vezes, o Cabo Setenta tenha razão quando repete o dito popular: “todo penso é torto.” É ou não é?

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